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Como sobreviver as crises

Assuntos: Autoconhecimento | Autor: Eugenio Mussak | | Postado em 16.06.2014
Situações inesperadas acontecem, ainda que muitas delas pudessem ser evitadas com um pequeno exercício de previsão

Situações inesperadas acontecem, ainda que muitas delas pudessem ser evitadas com um pequeno exercício de previsão

Acompanho as matérias da revista Vida Simples há algum tempo. É muito fácil ler e me identificar com os temas, sempre voltados para o cotidiano. São reflexões que na maioria das vezes me faz pensar sobre a vida e sobre minhas experiências.

Por incrível que parece, “crise” é um assunto que adoro! Difícil mesmo  é passar por ela! Acredito piamente que, conforme a disposição de cada um, as crises ajudam a desenvolver potencias que nós mesmos acreditávamos não existir.

Muito agradecida ao Eugênio e sua turma por autorizar a publicação da matéria aqui no Blog!  Boa leitura pra vocês!

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Do leitor Rodrigo Villas-Bôas: “O assunto da atualidade é a crise, mas esse é um tema recorrente na humanidade. Como cada pessoa pode lidar melhor com as crises?”

Sim, estamos passando por uma crise mundial e todos nós já sabemos. Para responder a pergunta acima, caro leitor, vamos fazer uma rápida revisão do conceito de crise. Comecemos pela etimologia: a palavra deriva do grego krisis, que significa “decisão”. Só de entender a origem da palavra, percebemos que ela tem a ver com todos, pois não há quem não tenha que tomar decisões na vida, a não ser os que não querem mandar em seu próprio destino. Além disso, temos que entender que uma crise pode surgir por, pelo menos, três motivos: pode ser uma situação inesperada, um fato provocado ou uma condição natural.

Situações inesperadas acontecem, ainda que muitas delas pudessem ser evitadas com um pequeno exercício de previsão. Mas uma crise pode se instalar em nossa vida de repente, provocada por forças que não podemos controlar. Que atire a primeira pedra quem nunca viveu uma crise financeira, profissional, emocional ou mesmo de saúde. E levante a mão aquele que não se revoltou enquanto estava vivendo com a crise e não sentiu que ficou melhor depois que ela passou. A crise exige tudo de nós, libera as forças que estavam adormecidas e nos aprimora imensamente. Uma crise pode deixar a pessoa melhor, acredite. Aliás, saiba que você não será julgado pelas crises que teve – pois elas são inesperadas –, e sim pelo que você fez com elas.

Crises inesperadas

Quando eu estava entrando na adolescência, uma idade cheia de dúvidas e chatices, meu pai faliu. Aquele mundo seguro, organizado e alegre que conhecia ruiu de um dia para o outro sem que eu tivesse o mínimo de preparação para enfrentar as mudanças que viriam, e que não foram poucas. Para mim, essa crise familiar foi totalmente inesperada, pois não tinha idade para entender os acontecimentos que precederam o desastre. Confesso que não foi fácil, principalmente por conviver com o sofrimento de meus pais e por não apresentar nenhuma condição de colaborar, a não ser com minha própria passividade. Se eu pudesse mudar minha história, começaria por apagar aqueles dias de apreensão e angústia familiares. Como isso não é possível, o que me restou foi mudar a história dentro de mim – sua dimensão e seu significado – para alterar seus efeitos, que é o que interessa no fim.

Crises intencionais

Exatamente porque a crise trans forma as pessoas para melhor que muitas vezes ela é intencional. Essa é uma abordagem que cabe melhor na administração de empresas. Pode parecer estranho, mas, nas organizações, em muitas situações são instaladas crises que parecem desnecessárias, mas têm um forte componente estratégico. Os períodos de progresso, com uma equipe vencedora trazendo ótimos resultados, não parecem ter alguma coisa a ver com uma crise, mas muitas vezes são a consequência de uma. Quando os resultados desejados ameaçam não se manter, estagnam, começam a se repetir e a curva no gráfico assume o comportamento de platô, é o momento de instalar uma crise artificial porque os administradores percebem que há uma crise natural no horizonte.

 Crise é parte de um processo natural de evolução, sem a qual ficamos estáticos

Nas empresas, por incrível que pareça, os líderes são verdadeiros criadores de crises, no bom sentido. Eles têm o poder, e o dever, de tirar as pessoas da zona de conforto, exigir pró-atividade, criatividade, inovação, resultados melhores. Crise é exatamente isto, uma situação em que as pessoas se sentem desconfortáveis, então reagem, tornam-se mais ativas, atentas, preocupadas em dar o melhor de si. Além disso, uma crise tem outra virtude: a de separar o joio do trigo. Sim, pois, na crise, aqueles que não são comprometidos são os primeiros a abandonar o barco e isso é ótimo, pois quem não ajuda atrapalha.

Crises naturais

Também existem as crises naturais da vida, que marcam nossas fases evolutivas. Nossos ciclos são abertos pelas passagens da idade, pelas novas atividades ou pelas relações humanas. Passar da infância para a adolescência ou desta para a maturidade, sair do colégio e entrar na faculdade, trocar de emprego, casar, ter um fi lho, todos esses momentos são momentos de ruptura, de decisões importantes, de crises, enfim. E haja fôlego para enfrentá-los. Entretanto, se, por um lado, não temos como fugir dessas crises existenciais, por outro, aprendemos com elas e, por isso, amadurecemos e evoluímos. Na evolução natural das coisas, uma crise é um momento ou uma fase difícil, em que fatos, ideias, status ou situações são questionados e levados a mudar. Crises são, portanto, naturais.

Lembro-me de uma lição da natureza. Certa vez, em Belém, tive a oportunidade de visitar o maior borboletário do mundo (orgulho dos paraenses), no Mangal das Garças. Para entrar nele, é necessário não ter medo de insetos, mas isso não é difícil, pois as borboletas nem parecem ser da mesma classe das moscas e dos besouros – lembram delicados pássaros ou, quem sabe, pinceladas de tinta no ar.

Cada borboleta vive cerca de um mês, então é necessária a reposição permanente. E de onde vêm os bichinhos? Lá há uma espécie de berçário, um laboratório que alimenta as fases intermediárias da borboleta, pois ela vive mais tempo em outras formas, antes de virar um inseto voador. O biólogo responsável me explicou direitinho: “Do ovo nasce a lagarta, que se alimenta o quanto pode. Então ela vira crisálida e fica dentro de um casulo para finalmente virar borboleta através de um processo delicado de transformação”. “Crisálida?”, perguntei curioso. “Sim, é o nome dessa fase de grandes transformações. É quando, de fato, a feia lagarta vira a bela borboleta. Recebeu esse nome porque é quando o animalzinho vive uma crise de mutações.”

Eu precisei de uma borboleta e de um biólogo para finalmente entender o verdadeiro significado de uma crise. E, mais, para perceber que a crise é parte de um processo natural de evolução, sem a qual ficamos estáticos, presos a uma condição não mutante, cristalizada na mediocridade. No fim, a crise é o que nos salva porque nos desafia, estimula, ensina e, finalmente, nos transforma.

O que dá para fazer

O escritor Anthony Robbins, que teve seu livro Poder Sem Limites no topo da lista dos mais vendidos nos Estados Unidos por meses, faz uma reflexão inquietante sobre como reagimos às crises. Ele se pergunta: “Que mistério envolve a diferença que há entre uma pessoa que aproveita a oportunidade de estar vivendo uma crise para se transformar para melhor e outra que simplesmente se deixa destruir por ela?” A resposta não é fácil e preocupa não só o escritor como também psicólogos, professores e pais.

Não há respostas prontas, mas algumas pistas. A primeira, oferecida pela biologia, nos explica que as emoções, os sentimentos e os movimentos que derivam destes são mediados por substâncias químicas, os neurotransmissores, que têm o poder de provocar reações de um tipo ou de outro. Como não há duas pessoas iguais em relação à combinação fina dos neurotransmissores, também não teremos reações idênticas a situações de perigo, de dificuldade e de medo. Dois irmãos gêmeos poderão apresentar posturas opostas diante de uma situação inesperada, por exemplo. Quando participei de operações de ajuda a famílias antingidas pelas enchentes de 1983 em Santa Catarina, tive a oportunidade de verificar isso. Enquanto alguém chorava e se desesperava, outra pessoa, da mesma família, mantinha a calma, buscava soluções e, principalmente, fazia alguma coisa.

A segunda explicação vem da psicologia, que busca entender a relação entre os efeitos e suas causas. Quando uma grande perda – a separação dos pais, por exemplo – não recebe o devido tratamento e não é elaborada convenientemente, pode se transformar em um trauma. Traumas são minas terrestres na estrada da vida, e a qualquer momento podemos pisar em uma delas. É por isso que as crianças devem aprender a conviver com algumas frustrações, pois, se suas vontades forem atendidas permanentemente, encontrarão alguma dificuldade para lidar com as frustrações futuras, que são inevitáveis em uma vida normal.

A terceira possibilidade de entendimento é oferecida pela pedagogia, que nos dá uma pista espetacular: podemos aprender a lidar com as crises. E podemos ensinar a outros, pois há uma lógica no aparecimento e na solução de uma crise. Para aprender a lidar com as crises, temos que perceber que nada na vida é definitivo e o tempo será o recurso mais útil para acalmar o espírito, apagar as mágoas e limpar o arquivo do sofrimento.

Igualmente importante é deixar a razão predominar, pois, dessa forma, poderemos analisar o cenário e entender por que a crise se instalou e elaborar possíveis saídas. E partir para a ação, não ficar paralisado pelo medo, bloqueado pela indignação ou pasmo ante o inesperado.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.
Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

Site do Eugênio Mussak: www. eugeniomussak.com.br

 

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