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Invisível e infeliz

Assuntos: Autoconhecimento | Autor: Lívia Bione | | Postado em 24.02.2015


White Goatee Man Wearing Gray HoodTodos nós em um momento da vida já pensamos em ter algum tipo de super poder. É principalmente na infância, quando nosso universo tende a ser mais colorido e repleto de fantasia que a brincadeira de escolher, no mínimo, um super poder, é mais freqüente. No entanto, já adultos, vez ou outra acordamos nossa criança interior ao desejarmos o teletransporte quando presos no trânsito e, quem sabe, a visão além do alcance quando queremos, de bem longe, conseguir enxergar a senha do celular dos nossos amores.

Sim, ter um super poder sempre pareceu fantástico e, inclusive (considerando a forma lúdica de lidar com os fatos), a família em que todos portam alguma habilidade especial é chamada de “Os incríveis”. Recentemente, entretanto, ao estudar o sofrimento de um cliente (ou paciente, como preferir), logo após um de nossos encontros, dei-me conta de um fato inusitado: estava diante de alguém que desenvolveu a incrível habilidade de se tornar absolutamente invisível, porém, sua dor habitava exatamente aí.

Não foi da noite para o dia nem se trata de algo congênito, tão pouco. Tratava-se de uma invisibilidade modelada, desenvolvida gradativamente ao longo de sua vida e que era reforçada pelo prazer que experimentava ao evitar situações que poderiam lhe frustrar e entristecer e, ainda, por lhe garantir a satisfação de participar do mundo como observador, sem ser notado por ninguém, sem ser reconhecido. Esteve em cena sempre, desde o princípio, não se furtava à presença, mas assumia o papel daquele que não quer ser visto.

A invisibilidade, é claro, é uma metáfora para esse texto que representa uma extensão da minha leitura do caso. No entanto, há de se considerar que essa percepção só se tornou possível pela força que esse “poder” tinha na vida desse cliente. Conseguia tornar-se invisível, ao longo dos anos, a cada momento em que assumia a vida de outros, assumia os desejos e hábitos dos outros e, mesmo que imerso em novos ambientes e relacionamentos, sua satisfação permanecia no que acreditava serem as expectativas dos outros em relação às suas atitudes.

Assim, numa ausência total de autenticidade e espontaneidade própria, não conseguia dizer  sua opinião, sua visão acerca dos fatos vividos e, muito menos de SEUS afetos.Aliado a isso, nas breves tentativas de se tornar visível, experimentava a frustração de não ser visto da maneira como gostaria e, principalmente, por sua presença tão sutil que seus ares de invisibilidade se mantinham presentes mesmo contra o ímpeto de fazer-se notar pelos demais.

Em um dos nossos encontros, verbalizou seu sofrimento quando, depois de um evento social, familiares e amigos próximos, mais uma vez, não terem se recordado da sua participação naquela ocasião. Ali tínhamos mais um momento em que nos deparávamos com o “poder” que, em algum momento, lhe gerou satisfação e que, hoje, afirmava ser motivo de tristeza.

Muitas análises são possíveis, no entanto, aqui privilegio a profunda angústia experimentada ao buscar qualquer contato consigo mesmo, com sua história, com sua trajetória de vida, seus anseios e medos. Quando se deparava com sua identidade não se sentia feliz e na tentativa de sentir-se melhor ou agia como acreditava que queriam que agisse ou, simplesmente, se escondia.

A psicoterapia foi bastante importante por promover o espaço onde essa identidade poderia se apresentar e, principalmente, a partir da relação terapêutica, se sentir segura. Em terapia foi possível conhecer afetos, desejos e aspirações próprios e, assim, aos poucos, e em seu tempo, uma identidade mais fortalecida foi se modelando e se fortalecendo a cada nova sessão. A satisfação experimentada nesse processo tem sido maior que o medo de ser julgado e de ser expor e, agora, vê como oportunidade as situações em que poderá conversar com alguém e se fazer presente de alguma maneira.

Sua habilidade de se tornar invisível vem sendo cada vez menos adotada, até porque agora, o momento é de aprender a aparecer. Juntos, com isso, reforçamos aquele velho entendimento de que o que diferencia um veneno de um remédio é a dose e, já que a saúde está no equilíbrio, até mesmo o que poderia ser um “super poder” será, na verdade, um super problema se em proporções inadequadas.

psicólogo_centro_rio Lívia Bione é Psicóloga, graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Atende adolescentes e adultos no centro do Rio de Janeiro, rj.

 

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