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Meu pai e eu em uma canção 

Assuntos: Relacionamentos | Autor: Lívia Bione | | Postado em 28.08.2015

pai

 A recente regravação feita pela cantora Ana Carolina do sucesso Coração Selvagem, canção lindamente cantada por seu autor Belchior, na década de 1970, não foi para mim apenas um presente para os ouvidos, mas também uma oportunidade de abrir um baú de doces memórias. Eu era pequena e meu pai, naquele tempo, um homem jovem e, como muitos de sua época, um fã de Belchior. Lá em casa, como em tantas outras, havia aquele ritual de escolher o disco, colocar na vitrola e cantarolar até ter que virar o lado A para o lado B e vice-versa. E um dos artistas preferidos do meu pai era Belchior. Nas primeiras vezes que ouvi a regravação de Ana Carolina, fui envolvida por uma grande emoção. Em primeiro lugar, porque a música é linda, uma verdadeira poesia. E, além disso, porque me despertou uma reflexão acerca da minha relação com o meu pai em sua construção ao longo dos anos. Na “conversa” entre a filha e a psicóloga, compartilharei aqui, nesse texto, um pouco das reflexões do campo psicológico acerca do relacionamento entre filhos e seus pais.  

               Todos  temos um pai: o pai biológico, uma mãe que assume o papel de mãe e pai, um avô pai, uma avó pai, um tio pai, um amigo da família pai, enfim, o que quero dizer é que mesmo quando por algum motivo ou razão o pai que “deveria” ser pai falta, há alguém que poderá assumir o PAPEL de pai na vida de um filho. Ele(a) é quem assumiu cuidar de você, quem acompanhou seu crescimento, quem te ensinou com suas virtudes, mas também e, principalmente, com suas falhas; quem esteve disponível quando você precisava e, ainda, quando você nem imaginava, quem ocupou um espaço dentro de você e lhe norteava nas ações que você iria tomar.

Quem construiu os alicerces para a construção dos seus valores, a voz que ecoa dentro do seu coração e da sua mente quando você está em apuros e diante de grandes desafios.  Zak Ebrahim, no TED Vancouver, em 2014, falou sobre como foi crescer em contato com um pai terrorista, em um ambiente rodeado pelo ódio e como essa experiência lhe despertou para a busca da paz. Em seu discurso chama atenção para seu desejo de trilhar um caminho totalmente avesso ao traçado pelo pai e os esforços que precisou realizar para isso. Diante de histórias como as de Zak, entendemos que se para muitos a figura do pai serve como referência daquilo que se deseja ser, para outros, a figura paterna é a referencia de tudo aquilo que não se quer ser.

               Há quem possa dizer que não teve pai e, mais ainda, o que me parece muito difícil, no entanto, quem sabe, possível, que não teve ninguém que assumisse esse papel em sua vida. Ficaríamos, então, com o vazio. Para essas pessoas, eu diria que o vazio também pode ser reconhecido como pai. Ter de lidar com a falta, com o desamparo paterno pode ser um daqueles aprendizados duros e difíceis da vida mas, por vezes, tão agregador e promotor de amadurecimento quanto muita relação de pai e filho por aí. O vazio pode ser um pai ditador, duro, daqueles que queremos negar e fugir a qualquer custo, fingindo que ele inexiste. Mas o vazio também faz as vezes de pai na construção da identidade de muitos. O vazio também pode ser um pai bondoso já que ele permite ser preenchido pelas nossas próprias escolhas. Bom ou ruim, presente ou ausente, divertido, carinhoso, preguiçoso, ou  seja lá como for o seu pai, zerados os esforços de negação, o fato é que todos temos um pai.

               E vira e mexe a vida vai nos colocar diante desse pai, seja num abraço caloroso e apertado, seja  naqueles momentos em que agimos como se fôssemos eles, seja ao ouvir uma bela canção que ele adorava e até quando nos percebemos enquanto seu oposto. E, dessa forma, eles nunca morrem, aparecem nas digitais da nossa identidade e estarão sempre vivos em nós.

 psicólogo_centro_rioLívia Bione é Psicóloga, graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Atende adolescentes e adultos no centro do Rio de Janeiro, rj.

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