-
Blog leia todos os artigos publicados pelos nossos psicólogos

Distúrbios dermatológicos relacionados às questões emocionais.

Assuntos: Saúde | Autor: Luciana Zimmerer | | Postado em 23.10.2013

problemas de peleEntrevista feita com a dermatologista Cláudia Alcantra Gomes, formada pelo curso de residência médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizada pelo psicólogo Marcelo Pinheiro.

Publicação mediante autorização da entrevistada.

1- Que relação você identifica entre os distúrbios dermatológicos e as questões emocionais?
R: No grupo das doenças cutâneas que são causadas ou influenciadas pelos fatores psíquicos, existem inicialmente dois subgrupos que devem ser relacionados. São as doenças de origem psicogênicas e as doenças de origem psicossomáticas. Basicamente as doenças de origem psicogêncica são aquelas em que a manifestação cutânea faz parte da sintomatologia do quadro. Ela pode ser o principal sintoma do quadro existente ou então o sintoma inicial que vai dar origem a todo o quadro apresentado.

Enquanto as dermatoses psicossomáticas são aquelas em que existe uma relação orgânica bem estabelecida que vai ser exacerbada ou precipitada por fatores emocionais. A partir daí, identificado esses dois subgrupos existe algumas doenças que são mais características e mais frequentes na nossa prática.

2- Quais são elas?

R: Em relação as dermatoses psicogênicas, basicamente aquilo que a gente mais vê na prática é o que a gente chama de dermatite factícia. A dermatite factícia é caracterizada pela produção de lesões pelo próprio paciente e ele propositalmente nega a realização dessas lesões. São pacientes que se auto- escoriam, geralmente é um diagnóstico difícil de se estabelecer. Após várias consultas você vai conhecendo esse paciente e entendendo que existe esse comportamento um pouco diferenciado. Essas lesões estão localizadas em áreas exclusivamente de afeto, como as mãos do paciente e com isso já vão indicar o diagnóstico. Muitas vezes essa lesões são produzidas pelas unhas do paciente, mais em alguns casos mais extremos eles podem recorrer inclusive a instrumentos, objetos, tesouras, pinças, lixa. Tudo isso é visto e não é tão raro assim.

Um outro quadro que seria um pouco parecido, mas no qual o paciente tem ciência que ele produz a lesão é a escoriação neurótica. Nesse caso, o paciente faz uma auto- escoriação, mas na verdade ele se refere que é o próprio a realizar mas que não consegue controlar esse instinto e que o faz por uma questão de um purido intenso, ou queimação, ou sensação de que tem alguma coisa andando na sua pele e com isso ele vai se auto escoriando. São quadros também bem frequentes e que nós observamos no nosso dia a dia.. É claro que existem casos mais extremos, de pacientes que simulam doenças, que fazem verdadeiras peregrinações pelos hospitais, chegando até a internações e que muitas vezes você só consegue a recuperação e o diagnóstico da doença quando em observação 24 horas, coisa que você só consegue com o paciente internado.

3- Como é feito o diagnóstico diferencial nesse tipo de quadro?
R: Na verdade existem algumas lesões que clinicamente sugerem a auto – escoriação, então uma coisa que a gente chama de lesão saca -bocado, que é aquela que é causada pela unha do paciente, ela é muito característica, ela tem o formato da unha quando ela se aprofunda, e isso já sugere o diagnóstico. Mas muitas vezes não é assim e ele pode usar instrumentos para a auto- escoriação. Em alguns pacientes você chega até a realização da biópcia para se estabelecer o diagnóstico.

Em uma primeira consulta é muito difícil você já conhecer o perfil de um paciente, e se não houver aqueles sinais caractrerísticos das lesões da escoriação neurótica, você realmente vai ter dificuldade e só após várias consultas você vai conseguir chegar, e muitas vezes pode até não chegar a esse diagnóstico. Existe o paciente que muitas vezes simula a doença.

4- Que tipo de intervenção é feita com esse tipo de paciente?
R: Quando você inicialmente já estabelece que é uma doença psicogêncica, é claro que esse paciente espera do médico dermatologista o reconhecimento de uma doença cutânea, ele não está pronto para assumir que essa seja uma questão única e exclusivamente psicológica. Então a abordagem, ela geralmente sugere um tratamento ( dentro do limite ) valorizando aquela alteração cutânea, mas no momento que se identifica que há uma questão psicológica, é conversado e indicado a psicoterapia. Obviamente que não são todos os pacientes que reconhecem a necessidade e isso gradualmente vai sendo discutido, mas é importante que paralelamente tenha um tratamento também dermatológico, porque esse paciente tem um distúrbio cutâneo que precisa ser tratado. Muitas vezes surgem infecções secundárias nas lesões.

5- Qual é o prognóstico nesses casos?
R: Ele basicamente vai do resultado da terapia, porque é um tratamento dermatológico único e exclusivamente não resolve nunca, não tem como. A doença psicogênica, que é diferente da psicossomática,  depende de uma questão psíquica, a questão cutânea é uma consequência. Clinicamente e dermatologicamente há uma limitação no tratamento. E isso vai depender do quanto o paciente está comprometido psicologicamente e de que forma ele deposita sua ansiedade ou qualquer distúrbio que ele apresenta na questão da pele. Isso é muito variado.

6- Na medida em que vocês fazem a indicação vocês percebem um alto índice de pessoas que realmente procuram a terapia?
R: Também é variado, mas de um modo geral não há uma rejeição em procurar , mas efetivamente em se saber qual o resultado desse tratamento ( que é uma coisa a longo prazo). Então em questões estatísticas, saber quanto isso se reverte, quantos realmente procuram a terapia é complicado. O que é um fato é que realmente eles melhoram com terapia. Alguns nem voltam ao consultório médico, porque no momento em que você coloca que é uma questão que não depende só do remédio que ele vai passar na pele, muitos não ficam satisfeitos e vão procurar um outro dermatologista que encontra uma fórmula mágica que vai resolver aquele problema cutâneo, que em termos etiológicos não é cutâneo.

7- Que outros quadros desempenham um componente emocional?
R: Agora vamos entrar na questão psicossomática, que seria basicamente os quadros organo- genéticos que são exacerbados, perpetuados por fatores psíquicos- emocionais.

São doenças reconhecidamente orgânicas, mas que podem ter um quadro acentuado por uma questão de estresse. A própria acne, que pode ter dois componentes. Pode acontecer do paciente em um momento de estresse ter um quadro que fica mais exacerbado, e o paciente que tem um quadro de acne severo e intenso, com muitas cicatrizes e que evolui para um quadro depressivo. Isso é extremamente frequente, até porque a acne é muito frequente. É comum ver paciente com um quadro de acne muito acentuado muito deprimido. E aí seria um quadro emocional, consequente ao quadro dermatológico, mas também pode anteceder.

Outros quadros são as doenças auto-imunes, nós vemos alguns pacientes, com quadro de lúpus que pode ter algum tipo de exacerbação e paciente com psoríase que são lesões cutâneas, com quadros extensos. Então essa doença passa a ter um aspecto muito amplo de manifestação clínica, essa instabilidade gera uma ansiedade muito grande no paciente, que tem um quadro controlado tem muito medo que ele chegue aquele extremo do quadro não controlado. Por exemplo , o paciente com vitiligo. É claro que tem vários pacientes com vitiligo que não tem nenhum componente emocional identificado, mas tem muitos pacientes com vitilígo que você consegue colher na história o momento em que houve a morte de um parente, ou houve um trauma na infância. Então existe essa relação. Não é a causa, mas existe um fator precipitante, de exacerbação, mas não é a causa unicamente.

8- Nesses casos você acha indicado o psicoterapia?
RÉ indicado a psicoterapia, sobretudo nessas doenças crônicas. É muito difícil o paciente aceitar e lidar com a doença crônica, ainda mais a doença, que eu já falei, que tem esse aspecto de apresentação. Então o paciente que tem vitiligo pode ter uma mancha branca, e ele geralmente vai ter um quadro limitado. Aquele quadro mais extenso, comprometendo uma maior área da pele é muito raro, o que é o grande temor do paciente. A idéia que se tem do paciente com vitiligo, é aquela em que ele fica todo manchado, o paciente tem tanto medo e tanta ansiedade em relação a isso, ele lida tão mal com o diagnóstico, que isso pode realmente estimular o sistema imunológico dele, e com isso ir abrindo outra lesão. O próprio diagnóstico pode gerar isso se ele não souber aceitar e lidar com a doença. Essa é uma questão da ansiedade ligada ao estresse que estimula o sistema imunológico negativamente e leva a um quadro mais extenso.

herpes também é uma doença que há muito tempo é reconhecida como um quadro que pode ser reativo nos momentos de estresse, mas não só o estresse, tem outros fatores que podem desencadear a doença. E isso, só para deixar claro, não é o fator emocional que vai desencadear a doença, nesse caso psicossomático, este será apenas um fator de exacerbação, mas não é a causa, diferente do psicogênico. No caso da herpes, é uma questão de ansiedade, da depressão do sistema imunológico desencadeando a erupção.

No câncer também tem muitos pacientes que abrem a doença em um momento de depressão. E isso em resposta até mesmo ao tratamento, nós observamos que tem pacientes que apresentam uma resposta mais favorável, são aqueles que lutam mais.

O câncer pode ter seu curso e sua evolução exacerbada por fatores emocionais, e isso vale para qualquer câncer. Os pacientes que tem uma maior disposição para enfrentar a doença, que não entram em depressão profunda tem uma evolução melhor. Isso é reconhecido. Além dessas doenças que podem ser exacerbadas, podemos citar nesse grupo as fobias, as dermatofobias, as dermatocompulsões que é o paciente que rói  unha.

9- Você pode me dar um exemplo de uma dermatofobia?
R: Isso é muito comum. Por exemplo o paciente que tem a convicção que tem ácaros na pele, eles podem ter um purido, mas acham que são ácaros. Esses pacientes podem até ter tido escabiose e estarem curados, mas eventualmente persistem naquilo, com o medo de ter o micro organismo na pele.

10- Qual é o tipo de intervenção que vocês fazem?
R: Na verdade, existem alguns tratamentos que são feitos topicamente, mas sabendo que você não tem mais a lesão, mas que existe ainda a memória do período que o paciente estava com a doença. Você tem alguns tratamentos tópicos para controle dessa sensação, desse purido, e que tem uma resposta bem favorável.

No caso da dermato-compulsão, que é o caso do paciente que roí unha compulsivamente, tem uma questão psicológica exacerbando isso, uma questão da ansiedade. Tem pacientes que arrancam os próprios cabelos, que é uma questão também da ansiedade, não existe um fator identificado. Todos esses agentes podem existem e se relacionar com uma doença psíquica e uma doença dermatológica. Mas na prática, o que a gente mais vê, e o que realmente preocupa e é o que a gente mais tem dificuldade de tratar são as doenças evidentemente psicogênicas, onde o paciente apresenta lesões e você não tem como tratar, porque não existe um remédio cutâneo para tratar uma questão que é psicogênica.

11- Como você avalia a possibilidade, atualmente de uma parceria entre o atendimento psicoterapêutico e o atendimento médico?
R: Isso depende do local de trabalho, na verdade essa seria uma situação ideal. Se você pode ter a garantia que o seu paciente tem uma questão dermatológica, que você detectou e avaliou e que acha importante trabalhar a questão emocional; e se você tem um profissional de sua confiança, que você confia e que seja capaz de acompanhar o paciente e que tem uma formação nessa área ( que o médico não tem), é fundamental a parceria

Para esses pacientes é indiscutível a necessidade de um acompanhamento paralelo, porque se não você não vai conseguir um resultado para o tratamento.

Acho pequeno esse trabalho interdisciplinar, os consultórios são isolados, dificilmente são clínicas realmente interdisciplinares, onde você tem várias especialidades realmente trabalhando conjuntamente. Mas eu reconheço a necessidade desse trabalho nesses casos. Na área dermatológica, em especial essa parceria é importante, pois tem muitos casos que requerem esse acompanhamento duplo.

12- Você teria alguma explicação para isso?
R: Eu acho que muitas vezes o médico não reconhece a real necessidade, ou se acha capaz no espaço clínico de resolver essas questões. Se você não tem a tranquilidade de abordagem com o paciente, e se você identifica que existe não essa questão psicológica, e quer tratá-lo clinicamente, você vai levando o caso e não vai ter sucesso terapêutico.

Mas em muitos casos o médico identifica o problema (psicogênico) e encaminha o paciente. Jogar em cima do paciente que o que ele tem não tem nada a ver com a doença cutânea, que ele precisa tratar outras questões é muito complicado. Muitas vezes o que acontece é que o paciente some do consultório e nem vai procurar o psicoterapeuta. Daí ele procura um outro médico que lhe dê um outro diagnóstico e muitas vezes o paciente fica sem melhorar por uma questão de comunicação.

*Entrevista realizada pelo psicólogo Marcelo Pinheiro, gestalt -terapeuta, especialista em psicologia clínica e coordenador do curso de especialização em gestalt -terapia do instituto de Gestal- Teapia do Rio de Janeiro (IGT). A entrevista está disponível em forma de vídeo no site www.igt.psc.br/revista nْ 1 .*

Compartilhe:
Planilhas para você + saiba mais
Sublocação de Sala + saiba mais
Cursos e Grupo de Estudos + saiba mais
Todos os direitos reservados © 2013 Senhora Terapia Design por xCake